Vampyroteuthis infernalis, a história humana e natural

O que é o Vampyroteuthis infernalis? Nome científico de uma lula (“a lula vampiro do inferno” – seus tentáculos têm o formato de uma capa de vampiro) que vive em regiões abissais. Seria uma ficção filosófica, com a figura do animal criando alegoria da condição humana e da relação com os meios tecnológicos.

Vampyroteuthis infernalis

Vampyroteuthis infernalis

Metáfora no pensamento contemporâneo e da história universal. Tem origem barroca ligada a idéia da imagem no pensamento ocidental. Esta linha defende que a história humana e a do mundo natural não devem se distanciar, misturando o mundo da cultura e da natureza.

Felinto cita Benjamin, que busca a aproximação do mundo natural e humano através das alegorias. O teórico diz que a história humana não é a única que faz sentido. A história natural interessa pela efemeridade, pela transformação, condição igual a da história humana, com a insegurança da vida moderna. Benjamin analisa os objetos da cultura como animais, fósseis, plantas, fazendo um “cruzamento de circuitos” para promover uma visão diferente.

O palestrante utiliza o exemplo da Wunderkammer: Câmara de maravilhas do mundo, que mistura as maravilhas do mundo da cultura, do fascínio tecnológico e da natureza. Retorno da sensação barroca na contemporaneidade. Como os temas do corpo, da natureza, da curiosidade, têm retornado na ciência no mundo de hoje.

Erick Felinto afirma que não fazemos ciências humanas duras; em tudo há ficção. Nenhuma pesquisa que não seja movida pela paixão não merece ter peso. Pesquisa sem paixão é o Hades (inferno) da Academia.

O cinema, a fotografia e a apreensão do real

O que é a fotografia para Proust?

A fotografia é um dispositivo que fixa o tempo. Tentativa de capturar o tempo fugidio, que escorre.

Crítica de Proust ao cinema.

Para ele, o cinema não é capaz de revelar o que as pessoas vêem e percebem, mas revela  uma visão grosseira do mundo. O palestrante destacou que Proust não critica o cinema como possibilidade artística, mas sim à ingenuidade de acreditar que o cinema é o reflexo perfeito da realidade.

O telefone como uma admirável feitiçaria

O telefone modifica as formas de comunicação e diálogo. Na história das mídias o telefone é o desenvolvimento da carta e do telégrafo e do gramofone. Da escrita, ele perpetua a idéia de comunicação a distancia. Representa a separação do corpo e da voz, criando uma nova linearidade do código.

Para Benjamim, o telefone é uma máquina diabólica, a voz que vem dele tem uma força estranha, que toma de assalto e que controla e aniquila qualquer reflexão. Materializa a dominação da voz não controlada, que remete a situação cinematográfica do espectador, ao ser hipnotizado pelo filme.

Para Proust, o telefone é uma “admirável feitiçaria”, que mantém a voz da pessoas amadas próximas. É uma mídia de dimensão sonora que serve como reflexão para ligar o cinema não só a imagem, mas ao som. Discute-se prioritariamente a questão da imagem, o telefone incluiria a discussão sonora. Proust considera o telefone como a primeira máquina de síntese, de encurtamento de distâncias.

O trem e a industrialização do espaço-tempo

O trem como tecnologia q propiciou o desenvolvimento de redes de deslocamento de informação e pessoas, promovendo uma mudança de perspectiva. De acordo com Benjamim em “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica” o fundamental é entender o que seria essa “mudança perceptiva” implicada pela tecnologia. Essa mudança já acontece com o trem. O trem é o meio de transporte onde a estrada e a máquina viram a mesma coisa. Representa a industrialização do tempo e do espaço já no século XIX.

Em torno da questão da industrialização do tempo e do espaço, desaparece a “aura” da experiência. Isso ocorre devido ao encurtamento das distâncias espaço-temporais, perdendo-se a autenticidade dos lugares e comunidades. A viagem passa a ser de um ponto a outro, como se os lugares de passagem somem.

O palestrante lembra da Sinestesia (mistura dos sentidos, sons, cores, perfumes), que ocorre em decorrência da aniquilação do espaço-tempo. De acordo com Proust, é o que se chama de percepção descontínua. A visão de dentro de uma janela de trem é como uma visão do cinema. É descontínua, não é mais como uma pintura renascentista, está em movimento. A descontinuidade cria um novo tipo de percepção que exige uma tecnologia nova e o cinema representa esse dispositivo.

A mídia além dos meios de comunicação de massa

O que seria a mídia?

Adalberto cita McLuhan para mostrar a mídia não só como meio de comunicação de massa. A mídia não só comunica, mas também armazena. Mídia como meio de armazenamento, processamento, transporte e transmissão de sentido ou informação. Transporte: trem. Trem, telefone, fotografia e cinema. Mídia como conceito amplo, como reordenação do espaço e do tempo.

Esses meios constituem novas formas de percepção do espaço e do tempo. Como essa percepção muda e como se constituem antes mesmo do aparecimento do cinema, dispositivos econômicos e sociais. Experiência estética que antecede o cinema e exige o cinema. Cinema como conseqüência destas transformações.

Muller e Adalberto

Começou com um pouco de atraso a última mesa do Seminário.

Adalberto Mulher e Erik Felinto, sob mediação de Renata Rezende promete fechar os trabalho das noite com dois temas um tanto diversos. Felinto com Vampyrotheutos Infernalis: a segunda natureza do cinema, uma reflexão a partir de Frusser  e Adalberto, com A mídia e a percepção do tempo, baseado na obra de Proust.

Diversão solitária

Como fazer com que os indivíduos se divirtam separadamente? Como diagramar o espectro imagético distribuindo espectadores e produzindo um novo tipo de espetáculo? Segundo Tadeu, Thomas Edson concretiza essa possibilidade através de sua máquina e  Bill Gates atualiza-a com a Microsoft.

“Somos reduzidos ao estatuto permanente de espectadores, e apreendendo a realidade de modo espetacular, dentro de uma sociedade aliada ao consumo”.

Na transição da ótica clássica pra a moderna, do cartesiano ao romântico, surge a fantasmagoria. Robertson cria o gabinete de curiosidades, onde colocava cabeças decapitadas em espelhos; espectros luminosos; fios de metal em baixo dos acentos dos espectadores e disparar choques. A essência da fantasmagoria é a luz e a eletricidade. O elemento fantástico é a diagramação do espectro luminoso por meio da eletricidade. Isso no séc XVIII.

O cinema é capturado por mágicos, como Meliés, o pai da imagem ficcionalizada. Ele dialoga com experiências dissociativas, ao atualizar a fantasmagoria do séc XIX, além de dialogar com o imaginário do fantástico que a fotografia abriu.

“O homem e a orquestra”, de Meliére, e em seguida vem os Irmãos Lumiére, com “A chegada do trem á estação …” e “Trabalhadores saindo da fábrica…” A primeira coisa retratada é o cotidiano dos trabalhadores.

O cinema começa a gerar lucro no início do século XX. Griffth transpõe narrações da literatura para o cinema, sempre com leis de causa e efeito. O cinema narrativo é obvio, levantando hipóteses ao espectador, e depois quebrando-as. A imaginação e emoções são trabalhadas, com efeitos melodramáticos.

O gênero é fruto do processo de modernização, e traz uma esperança de final feliz. Alcança característica sensacionalista com os folhetins. A estrutura é  básica: uma promessa de estabilização.

Projeções (Proto)Cinematográficas

O curso de hoje está sendo ministrado pelo Prof. Tadeu Capistrano. Com o tema a História das Projeções (Proto) Cinematográficas, o professor começa falando sobre a Câmera Obscura.”Ela metaforiza como a imagem incide no próprio corpo”, diz. Na passagem do século XVII para o XIV, os românticos reivindicam a racionalização da imagem pelo corpo.

Câmera Obscura

Câmera Obscura

Outro paradigma é o da ótica fisiológica: interessa estudar o corpo vivo, na medida em que o corpo significa reserva de energia. A partir do vínculo com a fisiologia, o corpo se torna adaptável. Surge então o problema da atenção, com o surgimento da classe operária. Neste processo, a fisiologia e o estado investem na produção de corpos docilizados para os ritmos da sociedade industrial.

Esteroscópio

Esteroscópio

No século XIX, surgem vários aparelhos que medem a disparidade binocular, como exemplo o Traumatrópio, depois adaptado para o Zootrópio.  Há também o teatro óptico, e o esteroscópio. Isso acompanha a solicitação perceptiva da modernidade, com a linha fabril na esteira e imagens fragmentadas, o que pressupõe uma boa resistência retiniana.

Zootrópio

Zootrópio

Lançamento do Edital XPTA.LAB

No período da tarde de hoje, Francisco César Filho, do Ministério da Cultura, explicou sobre o edital que será lançado em Agosto. O Edital Programa Laboratórios de Experimentação e Pesquisa em Tecnologias Audiovisuais (XPTA.LAB) é uma ação relativa às novas mídias e se define não pelo fomento a produtos audiovisuais específicos, mas no fomento à experimentação de novos formatos e modelos de negócio.

O XPTA. LAB é uma promoção da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura em parceria com a Sociedade Amigos da Cinemateca.

O público participou da apresentação, tirando dúvidas e propondo melhorias ao edital. Daqui a pouco começa o curso “A história das Projeções (proto) Cinematográficas” .

Pergunta da mediadora Luciana Caliman

As falas se comunicam em vários sentidos. O Cinema, como manicômio óptico, se aproxima da loucura, mas é uma aproximação emancipatória. É uma resistência que acontece, pois em primeiro lugar há uma ampliação da percepção, com sujeitos mais ricos, mais complexos. Tudo passa a ser anomalizado. É o outro lado.

Ainda podemos falar de uma experiência dissociativa, como no século XX? Como pensar a questão da atenção?

Tadeu diz que essa ênfase do sujeito traria outras relações dissociativas. Isso não é uma resistência à percepção disciplinar, é uma forma detectada em relação ao cinema, a da percepção montada no cinema clássico.

O que temos no cinema é uma transformação. No Laranja Mecânica, temos o Alex fagocitado como produto espetacular.

Hernán afirma que existe uma distinção entre percepção e atenção. Nossa percepção do mundo já é uma codificação, por meio da cultura. Não tem a vez com a nossa subjetividade, mas com aquilo que a gente não é. Mas não sabemos o que não somos. Temos que buscar uma percepção e um afeto no devir, não no homem, mas em algo que ele ainda não é.

Esse aspecto não humano é o que Deleuze encontra na fabulação. São fábulas que fazem a ligação do homem com o mundo.

O que temos que fazer é dar lugar a aparição de fábulas, uma apresentação de um modo de existência, de um tipo de vínculo social e político. O cinema pode fazer, por meio das imagens, a apresentação desse vínculo político.

A memória não é natural do homem, mas nasceu da dor e do castigo. Não há memória que não passe pelo corpo. Surge então uma pergunta: o que está acontecendo com o corpo? Por isso a voz de Godard é interessante no “Histórias do Cinema”.